Gostaria de iniciar a nossa conversa com esse pequeno segredo sobre a arte de contar histórias – conte com o coração!
Contar com o coração implica em estar internamente disponível para essa ação, disposto a doar o que temos de mais singular e, entregando-se a essa função, com alegria, prazer e boa vontade. Ao contar uma história doamos o nosso afeto, nossa experiência e vivências, que carregamos do caminho percorrido. Resignificamos a nossa história e compactuamos com o que o conto quer dizer. Por isso torna-se fundamental que haja uma identificação, entre o narrador e o conto narrado. Tornar-se um.
Antes de sensibilizar o ouvinte, o conto precisa nos sensibilizar. A maneira como enxergamos a história será a mesma com que o outro irá vê-la. Se a considerarmos uma mera distração e entretenimento, será assim que ela irá soar. Mas, se formos tocados pelas suas imagens e percebermos que ela pode ser uma pequena luz a clarear as trevas, assim ela será.
Que história eu vou contar? Aqui está a chave. A escolha do exemplar literário. Se ele foi construído com o entendimento das diferentes realidades, que incluí o simbólico e a epifania, ele pode se aproximar do mundo imaginal do seu leitor.
Outro aspecto diz respeito ao envolvimento com a história narrada, o que permite maior flexibilidade ao narrador. Ele poderá perceber como ela atua nos ouvintes, e conduzir a narrativa, para lá e para cá, dançar com ela, deixar que ela ressoe no íntimo de cada sujeito, e perceber as intenções que surgem a cada instante: um riso, um lágrima, uma expressão de medo, de repulsa, surpresa.
Atuar juntos: história, ouvinte e narrador.
Cada narrador imprime seu jeito ao conto narrado, prioriza passagens que mais lhe impressionam, reforça alguma imagem que lhe toca, um sentimento que quer brotar. Isso se dá ao pensarmos na narrativa como uma atividade dinâmica, que atua sobre diferentes níveis de realidade.
E, são essas identificações entre narrador e conto narrado, que fazem a diferença numa contação de história. É isso que amarra o sujeito-ouvinte, ao fio de prata que é lançado do coração do sujeito-narrador. É isso que une, que repercute, que embala a alma.
Se existe essa integração, o conto passa a atuar sob o signo da dimensão mítico-simbólica e do mistério. Alcança aquele espaço que a linguagem racional não chega, mas que é alcançado pelas metáforas, pelas memórias, pela poesia. Avizinha-se desse espaço de interioridade, que podemos chamar de vida psíquica e de vida espiritual. Amplia a compreensão do mundo interno e subjetivo, ao nos colocar mais perto de nós mesmos.
Narrar sem essa consciência - de onde o conto pode chegar e, que faíscas ele pode acender no ouvinte -, implica em agir apenas na dimensão do prático-corporal e do lógico-epistêmico. Significa atuar sob a lógica clássica, dual e limitada. Dar voz ao que vem de fora, daquilo que é dado pelo externo, imposto pelas instituições, aquilo que aceito, mas que nem sempre reconheço como meu. Nessa situação, a narrativa deixa de ser uma experiência compartilhada, que descortina o universo pessoal do sujeito e passa a ser, mais uma informação repassada.
Compartilhar: tomar parte de algo com alguém, estar junto, em todos os níveis. Compartilhar: um verbo importante para se conjugar, principalmente na contemporaneidade, esse tempo fragmentado e rápido, que exclui o estar com, principalmente comigo. É preciso se entusiasmar para contar. É importante se permitir àquele intervalo de silêncio, perdido em algum lugar da nossa história. Há que se abrir um novo intervalo de tempo e descobrir o tempo de estar junto e de saborear uma história de amor.
Esse é o sentido da vida e de contar histórias!
BUSATTO, Cléo. Contar e encantar - pequenos segredos da narrativa. 5ª Ed. Petrópolis: Vozes, 2008.